Na Grécia antiga, os filósofos criaram a ideia de que o universo era infinito e eterno. Essa ideia
ultrapassou séculos, e predominou por muito tempo devido a falta de evidências contrárias.
Este dogma esteve presente em muitas obras científicas importantes, como por exemplo a
Relatividade Geral de Einstein, publicada em 1915, onde nela Einstein para não contrariar séculos de
pensamento de um universo estático, assumiu que deveria haver alguma força que “segurasse” a
expansão do universo prevista em suas equações, criando então a Constante Cosmológica (Λ).
Algum tempo depois da publicação da Relatividade Geral, em 1927, o padre e físico Georges
Lemaître reinterpreta a Relatividade Geral e propõe que é cabível a ideia de que o universo estaria se
expandindo e que o universo partiu, em algum momento, de um único ponto, e chamou a ideia de
“átomo primordial”.
Dois anos mais tarde, em 1929, Edwin Powell Hubble, enquanto observava galáxias distantes no
Observatório de Mount Wilson, notou que a maioria delas estava se afastando de nós. Ele percebeu
isso devido ao efeito Doppler cosmológico, análogo ao efeito Doppler convencional. A distinção entre
o cosmológico e o convencional reside no fato de que as galáxias distantes em si não estão em
movimento que aumenta com a distância; em vez disso, é o próprio tecido do espaço que se expande,
provocando um aumento na distância, e quanto maior a distância, mais tecido há para expandir.
Essa expansão pode ser medida e descrita pela Lei de Hubble (v = H₀ × d).
v = velocidade da expansão; H₀ = constante de Hubble; d = distância.
Apesar das fortes evidências trazidas pelas observações de Hubble, a ideia de um universo em
expansão não convenceu a todos os físicos, na década de 40 Fred Hoyle por exemplo, por não ser
favorável a ideia criticava a mesma abertamente, e em uma entrevista de rádio para a BBC ironizou a
teoria usando o termo ‘Big Bang’ para ridicularizar a hipótese de como se parecia a expansão do
universo.
Mesmo assim, o apelido acabou ficando popular, e dessa forma o crítico Fred Hoyle acabou batizando
acidentalmente a teoria de Lemaître.
Décadas depois de Hubble, em 1965 Arno Penzias e Robert Wilson, trabalhando em uma antena de
micro-ondas nos EUA usada para comunicação via satélite, detectaram um ruído constante que vinha
de todas as direções do céu. Acidentalmente eles acharam um eco térmico do universo quando o
mesmo tinha apenas cerca de 380 mil anos. Esse ruído já havia sido previsto pelo físico George
Gamow junto com seus alunos Ralph Alpher e Robert Herman entre os anos 40 e 50, enquanto
calculavam as implicações do Big Bang. E esse ruído é o que chamamos de Radiação cósmica de
fundo (CMB).
Figura 2: Mapa da radiação cósmica de fundo de micro-ondas (CMB).
E é com essa descoberta que chegamos em um dos grandes problemas ainda não resolvidos da
cosmologia: A Tensão de Hubble.
A Tensão de Hubble representa um dos grandes desafios da cosmologia atual. Ela se manifesta como
uma variação no valor da constante de expansão do universo(constante H₀, a constante de Hubble.),
dependendo do método de medição utilizado.
Por exemplo, a medição através da Radiação Cósmica de Fundo (CMB) fornece um valor de 67,4
km/s/Mpc, enquanto a medição por meio de supernovas de estrelas do tipo 1A próximas e cefeidas
resulta em um valor significativamente maior, de 73,2 km/s/Mpc. Até o momento, os principais e mais
confiáveis métodos de medição não parecem estar errados, mas divergem entre si mesmo que
individualmente possuem barras de erros baixíssimas.
Essa tensão sugere duas possibilidades principais: ou há algum erro técnico em nossos métodos mais
confiáveis de medir a Constante de Hubble, ou existe um conhecimento fundamental sobre o universo
que ainda nos falta. Isso poderia envolver a existência de partículas além do Modelo Padrão, a
influência da Energia Escura ou, talvez, algo totalmente desconhecido.
Seja qual for a resposta, a resolução da Tensão de Hubble tem o potencial de revolucionar a
cosmologia. Os mais novos instrumentos de observação como o telescópio espacial James Webb estão
sendo usados para tentar calibrar as distâncias e confirmar se a tensão permanece ou quem sabe,
desaparece e encerra esse grande mistério.
Referências:
d’ENTERRIA, David. Status of the Quark Gluon Plasma (QGP) search at RHIC: A PHENIX
perspective. Lisboa, 15 abril 2005. Apresentação no 7th Workshop on Percolation, Heavy-Ion
Collisions & Cosmic Rays. Disponível em:
https://www.phenix.bnl.gov/phenix/WWW/publish/enterria/lisbon_apr05/lisbon_apr05.pdf. Acesso
em: 12 out 2025.
EINSTEIN, Albert. Die Feldgleichungen der Gravitation. Sitzungsberichte der Königlich
Preußischen Akademie der Wissenschaften, 1915.
PLANCK COLLABORATION. Planck 2018 results. VI. Cosmological parameters. Astronomy &
Astrophysics, v. 641, A6, 2020.
RIESS, Adam G. et al. Cosmic Distances and Hubble's Constant. The Astrophysical Journal Letters,
2021.
WIKIPÉDIA. Radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Wikipédia, a enciclopédia livre.
Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Radiação_cósmica_de_fundo_em_micro-ondas. Acesso
em: 12 out. 2025. imagem CMB
Por: Lohan Gutz Rufino, integrante do Projeto de Ensino Clube de Astronomia e aluno do Curso Técnico em Química Integrado ao Ensino Médio, curso este oferecido pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Feliz.
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