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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Biologia Forense no espaço: é possível investigar crimes fora da Terra?

A biologia forense é uma área que tem grande importância aqui na Terra, pois auxilia na investigação de crimes, principalmente por meio da análise do DNA. Mesmo em condições consideradas normais, já existem diversas dificuldades, como a contaminação e a degradação das amostras biológicas. Quando essa área é pensada fora do ambiente terrestre, os desafios se tornam ainda maiores. No espaço, há fatores extremos como radiação intensa, microgravidade, vácuo e mudanças bruscas de temperatura. Diante disso, surge a pergunta: seria possível investigar um crime fora da Terra? E, além disso, quais seriam as implicações jurídicas envolvidas?

Essas questões servem como ponto de partida para o trabalho. O principal objetivo é compreender como o DNA se comporta quando exposto a diferentes condições ambientais, como calor, frio, congelamento e radiação, fatores que podem comprometer a integridade das amostras biológicas. Além disso, o estudo também busca refletir sobre o aspecto jurídico, investigando se existem leis, normas ou tratados que tratem de crimes cometidos fora do planeta.

Na parte prática, foi realizada em casa uma simulação simples de extração de DNA, com o objetivo de entender melhor como funciona esse processo, semelhante ao que ocorre em análises forenses. O material biológico utilizado para a extração foi a banana, uma fruta rica em células, o que facilita a visualização do DNA. A técnica utilizada foi a lise celular, que consiste no rompimento da membrana das células para liberar o material genético. O procedimento envolveu o uso de detergente, que quebra as membranas celulares; sal, que ajuda a separar o DNA de outras substâncias presentes na célula; e álcool gelado, que faz com que o DNA se torne visível. Ao final do processo, o DNA apareceu na forma de filamentos ou nuvens esbranquiçadas, permitindo a observação do material genético de maneira simples e visual, conforme apresentado na Figura 1.


Figura 1 - DNA extraído por meio do processo de lise celular, em condições normais.


Para facilitar a compreensão da atividade, o processo de extração do DNA pode ser descrito em um passo a passo simples, que pode ser realizado em casa com materiais acessíveis. Primeiro, escolhe-se uma fruta, como banana (utilizada nesta atividade) ou morango, que também é bastante indicado para esse tipo de experimento. A fruta deve ser bem amassada, para romper mecanicamente as células e facilitar a liberação do conteúdo celular. Em seguida, adiciona-se detergente, responsável por romper as membranas celulares durante a lise celular. Depois, acrescenta-se sal, que auxilia na separação do DNA de outras substâncias presentes na célula. Por fim, adiciona-se cuidadosamente o álcool bem gelado, o que faz com que o DNA se torne visível. Após alguns minutos, é possível observar o DNA como uma substância esbranquiçada, em forma de fios ou nuvem.

Após a extração, foram realizadas simulações com o DNA submetido a diferentes condições ambientais, com o objetivo de comparar como cada fator influencia sua preservação. Foram analisadas três amostras: DNA mantido em temperatura ambiente, DNA submetido ao processo de congelamento e descongelamento e DNA exposto à luz solar direta.

Na Figura 2, observa-se o DNA que passou pelo congelamento e descongelamento, apresentando um aspecto mais fragmentado. Isso ocorre porque o congelamento pode gerar cristais de gelo, que rompem as cadeias do DNA e causam danos à sua estrutura. Já na Figura 3, o DNA exposto à luz solar direta apresenta maior degradação, resultado da ação da radiação ultravioleta (UV), que quebra as ligações químicas da molécula e provoca a perda parcial do material genético.



Figura 2 - DNA submetido ao processo de congelamento e descongelamento.



Figura 3 - DNA exposto à luz solar direta.


Essas comparações mostram o quanto fatores ambientais interferem na estabilidade e na conservação do DNA, o que representa um grande desafio em ambientes espaciais, onde há radiação intensa e variações extremas de temperatura.

No que se refere à parte jurídica, atualmente existe o Tratado do Espaço Exterior, criado em 1967, que estabelece que cada país é responsável por seus astronautas e pelos equipamentos enviados ao espaço. No entanto, esse tratado apresenta limitações importantes, pois não define normas específicas para crimes que envolvam pessoas de diferentes nacionalidades. Assim, ainda não existe uma legislação internacional clara para lidar com crimes cometidos fora da Terra.

Um caso real que chamou atenção para essa questão foi o da astronauta Anne McClain, acusada em 2019 de acessar a conta bancária de sua ex-esposa enquanto estava a bordo da Estação Espacial Internacional. O episódio ficou conhecido como o primeiro crime potencial cometido no espaço. Apesar de não ter havido condenação, o caso levantou questionamentos importantes sobre quem teria autoridade para investigar e julgar crimes ocorridos fora do planeta.

É importante pensar nessas questões porque, quando a gente compara, dá pra perceber que se fatores que já são considerados “normais” aqui na Terra conseguem degradar tanto o DNA, no espaço isso pode ser ainda mais complicado. Lá fora, as condições são muito mais extremas e até difíceis de imaginar, o que torna a preservação de vestígios biológicos um grande desafio. Além disso, a parte jurídica também chama atenção, já que, como foi analisado, ainda existem muitas lacunas quando se fala em crimes cometidos fora da Terra. Esse é um tema que está se tornando cada vez mais atual e que merece ser mais estudado, tanto para pensar em formas de preservar o DNA quanto no desenvolvimento de equipamentos e protocolos adequados.


Referências:

IPOG – Pós-Graduação em Perícias Forenses. Genética forense: conheça como é realizada investigação criminal por exames de DNA. Goiânia: IPOG, [s.d.]. Disponível em: https://blog.ipog.edu.br/tecnologia/genetica-forense-conheca-como-e-realizada-investigacao-criminal-por-exames-de-dna/amp/. Acesso em: set. 2025.

GNIPPER, Patricia. Cometendo crimes no espaço: como esse tipo de ato pode ser julgado? Canaltech, 30 ago. 2019. Disponível em: https://canaltech.com.br/espaco/cometendo-crimes-no-espaco-como-esse-tipo-de-ato-pode-ser-julgado-148329/. Acesso em: set. 2025.

Como julgar um crime no espaço? JusBrasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/artigos/como-julgar-um-crime-no-espaco/751903598. Acesso em: set. 2025.

Nova fronteira da ciência forense: investigar crimes no espaço. TecMundo, [s.d.]. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/ciencia/280852-nova-fronteira-ciencia-forense-investigar-crimes-espaco.htm. Acesso em: set. 2025.

KAWANE, Kohki; MOTANI, Kou; NAGATA, Shigekazu. DNA Degradation and Its Defects. PMC – NCBI, 2014. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4031964/. Acesso em: set. 2025.


Por: Djovana Panzenhagen, integrante do Projeto de Ensino Clube de Astronomia e aluna do Curso Técnico em Meio Ambiente Integrado ao Ensino Médio, curso este oferecido pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Feliz.

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