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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Missões espaciais menos conhecidas: O programa Venera

     Sabemos que Marte está cheio de sondas e robôs o estudando, mas e os outros planetas? Descubra agora sobre o programa soviético Venera, responsável pelos primeiros estudos significativos sobre o nosso planeta vizinho Vênus. 

    O programa Venera (Em russo: “Венера”) foi uma série de 16 sondas enviadas à Vênus, com o objetivo de estudar a possibilidade do planeta de conter vida. O nome do programa significa “Vênus”. Todas as sondas foram lançadas do Cosmódromo de Baikonur (Figura 1), no Cazaquistão.

    Este programa detém recordes como:

  • 1º objeto humano à atingir a superfície de outro planeta (Venera 3);
  • 1º pouso suave em outro planeta (Venera 7);
  • 1ª caracterização da superfície de Vênus (Venera 8);
  • 1ª imagem da superfície de outro planeta (Venera 9).
Figura 1: Foguete decolando do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão.

    As sondas Venera 1 e Venera 2 (Figuras 2 e 3) não conseguiram sucesso pois erraram o planeta e perderam a comunicação com a Terra. As sondas foram lançadas, respectivamente, em 12/02/1961 e 12/11/1965. 

Figura 2: Venera 1.

 

Figura 3: Réplica da Venera 2 em um museu.

    Já a Venera 3 (Figura 4), apesar de ter conseguido atingir o planeta, não obteve sucesso total em sua missão, pois perdeu comunicação com a Terra antes de chegar ao planeta, por isso, acabou caindo em Vênus sem conseguir se comunicar com a Terra.

Figura 4: Sonda Venera 3, lançada em 16/11/1965.

    Assim como a Venera 3, a Venera 4 (Figura 5) não obteve sucesso em sua missão, pelo mesmo motivo da sonda anterior. Mas desta vez, ainda conseguiu transmitir dados sobre a atmosfera do planeta antes de ser destruída pelas condições extremas de Vênus, comprovando que a vida em Vênus seria impossível. A sonda foi projetada para flutuar caso pousasse em oceanos. Os dados transmitidos por ela mostraram que a atmosfera era 90% - 95% composta por CO2, 7% composta por Nitrogênio, a última temperatura marcada era de 280°C e a pressão atmosférica era de 20 kg/cm².

Figura 5: construção da Venera 4, que foi lançada em 12/06/1967.

    As sondas Venera 5 e Venera 6 (Figuras 6 e 7), lançadas respectivamente em 05/01/1969 e 10/01/1969, foram projetadas para resistir às condições notadas pelas sondas anteriores (materiais como titânio, alumínio e ouro). Nenhuma das duas conseguiu se comunicar com a Terra até atingirem a superfície venusiana, mas os dados transmitidos por elas conseguiram reforçar as informações obtidas pela Venera 4.

Figura 6: Venera 5.

 

Figura 7: Representação artística da Venera 6.

    Com o primeiro pouso suave em outro planeta, a Venera 7 (Figura 8) conseguiu transmitir dados à Terra por 23 minutos após pousar. Os dados obtidos notaram temperaturas superficiais de aproximadamente 470°C, atualizando os dados de suas antecessoras.

Figura 8: Representação artística da Venera 7 em Vênus, que foi lançada no dia 17/08/1970.

    A Venera 8 (Figura 9) também conseguiu um pouso suave em Vênus, os dados transmitidos por 50 minutos após o pouso comprovaram os resultados da Venera 7, e fizeram a primeira caracterização da superfície de Vênus, indicando que o solo era compacto, e que as rochas continham potássio, urânio e tório, sendo parecidas com o basalto ou granito presentes na Terra.

Figura 9: Réplica da Venera 8 em um museu.

    A primeira foto da superfície de Vênus (Figura 10) foi tirada pela Venera 9 (Figura 11), que foi a primeira sonda do programa a ser equipada com câmeras para tirar fotos panorâmicas. Além das imagens, a sonda analisou a quantidade de luz solar na superfície do planeta, mostrando que apenas 5% - 10% da luz solar conseguia atravessar a densa atmosfera venusiana.

Figura 10: Foto tirada pela Venera 9 (topo), e a foto tirada pela Venera 10 (em baixo)
Figura 11: Modelo 3D da Venera 9.

    A Venera 10 (Figura 12) conseguiu tirar mais fotos na superfície venusiana (Figura 10), e conseguiu se comunicar com a Terra por 63 minutos após o pouso.

Figura 12: Sonda da Venera 10.

    As sondas Venera 11 e Venera 12 (Figura 13) estavam equipadas com detectores de raios gama. Estes sensores foram produzidos pela França, e incorporados nas sondas através de uma colaboração franco-soviética para estudar as erupções de raios gama no espaço (GRBs). A coleta de dados sobre esta radiação foi um sucesso, foram usadas as duas Veneras e o satélite soviético Prognoz 7 (que orbitava a Terra) para rastrear a origem das GRBs.
    As sondas também continham um módulo de pouso, que carregava câmeras coloridas para fotografar a superfície de Vênus em cores, mas as câmeras não funcionaram corretamente após o pouso, mas mesmo assim conseguiram registrar a presença de fortes trovões e relâmpagos.

Figura 13: Orbitador das Venera 11 e 12 (direita), e seu módulo de pouso (esquerda).

    A Venera 13 foi a primeira sonda a enviar fotos panorâmicas coloridas da superfície de Vênus (Figura 14). A sonda também conseguiu coletar e analisar amostras do solo, e gravar um áudio dos ventos presentes no planeta. Infelizmente, este áudio ainda não está disponível on-line. Assim como a Venera 14, a sonda era equipada com uma furadeira mecânica e uma cápsula com espectrômetros de raios-X para estudar amostras do solo.

Figura 14: Fotos tiradas pela Venera 13.

    Já a Venera 14 (Figura 15), conseguiu os mesmos resultados da Venera 13, mas, o áudio coletado está disponível on-line neste vídeo:


    As câmeras da Venera 14 eram protegidas por uma tampa metálica que era ejetada na hora de tirar as fotos. Infelizmente, esta tampa caiu bem no ponto que a sonda iria analisar, fazendo com que o “braço” equipado na sonda medisse a compressibilidade da tampa de sua câmera ao invés do solo.

Figura 15: Representação da Venera 14 em Vênus.

    Diferente de todas as missões anteriores, a Venera 15 e 16 (Figura 16) eram similares, e foram projetadas apenas para orbitar e mapear o hemisfério norte de Vênus sem entrar em sua atmosfera. Como resultado, as sondas conseguiram mapear quase todo o hemisfério norte do planeta, com isso, descobriram as Coronae (acidentes geográficos com forma oval) de Vênus, descobriram que o planeta possui atividade tectônica e montanhas, além de crateras geradas pelo impacto de meteoros.

Figura 16: Representação artística da Venera 16 orbitando Vênus.

REFERÊNCIAS:

DM ANÓTICIAS. Venera 13: a odisseia da sonda. [s.d.]. Disponível em: https://www.dmanoticias.com.br/venera-13-a-odisseia-da-sonda/. Acesso em: 18 nov. 2025.

DREW EX MACHINA. Venera 8: the first characterization of the surface of Venus. 22 jul. 2022. Disponível em: https://www.drewexmachina.com/2022/07/22/venera-8-the-first-characterization-of-the-surface-of-venus/. Acesso em: 18 nov. 2025.

ESA – EUROPEAN SPACE AGENCY. Gamma-ray bursts (GRBs). [s.d.]. Disponível em: https://www.esa.int/Science_Exploration/Space_Science/Integral/Gamma-ray_bursts_GRBs. Acesso em: 20 nov. 2025.

GOOGLE BOOKS. [Página de livro]. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=jKmIclMIwPAC&pg=PA101&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false. Acesso em: 18 nov. 2025.

GUNTER’S SPACE PAGE. Venera 4. [s.d.]. Disponível em: https://space.skyrocket.de/doc_sdat/venera-4v2.htm. Acesso em: 20 nov. 2025.

O POVO. Há 45 anos – sonda soviética Venera 9 pousava em Vênus e enviava primeiras fotos do planeta. 22 out. 2020. Disponível em: https://www.opovo.com.br/noticias/mundo/2020/10/22/ha-45-anos--sonda-sovietica-venera-9-pousava-em-venus-e-enviava-primeiras-fotos-do-planeta.html. Acesso em: 18 nov. 2025.

RAMMB; CIRA; COLORADO STATE UNIVERSITY. Planetary Images: Venera. [s.d.]. Disponível em: https://rammb.cira.colostate.edu/dev/hillger/planetary.htm#venera. Acesso em: 21 nov. 2025.

UNIVERSO RACIONALISTA. Estas fotos assustadoras são as únicas já tiradas em Vênus. [s.d.]. Disponível em: https://universoracionalista.org/estas-fotos-assustadoras-sao-as-unicas-ja-tiradas-em-venus/. Acesso em: 21 nov. 2025.

WIKIPÉDIA. Venera 10 – Lander. Wikipédia, [s.d.]. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Venera_10#Lander. Acesso em: 21 nov. 2025.

WIKIPÉDIA. Venera 14. Wikipédia, [s.d.]. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Venera_14. Acesso em: 18 nov. 2025.

WIKIPÉDIA. Venera 4. Wikipédia, [s.d.]. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Venera_4. Acesso em: 18 nov. 2025.

V101 SPACE. This Is What The Surface Of Venus Sounds Like! Venera 14 Sound Recording 1982 (4K UHD). [s.d.]. Disponível em: https://youtu.be/P3Ife6iBdsU. Acesso em: 18 nov. 2025.

Missões espaciais menos conhecidas: O programa Diamant

    Quando pensamos em missões espaciais, sempre lembramos dos programas russos e americanos, mas você sabia que a França também conseguiu explorar o espaço? Sim, a França foi a terceira potência espacial do mundo, a seguir, estão descritas as principais missões do programa Diamant, que levou os primeiros satélites artificiais franceses ao espaço.

     O programa Diamant, da França, fazia parte do programa militar Pierres Précieuses, e consistia de 3 séries principais de foguetes: Diamant-A, Diamant-B e Diamant-BP4.
    O programa Pierres Précieuses foi criado com o objetivo de desenvolver mísseis balísticos franceses, utilizando tecnologias anteriormente usadas nos foguetes alemães V-2 (Figura 1). O projeto foi incentivado pelo presidente francês Charles de Gaulle, que criou a agência espacial francesa (CNES) em 1962 para administrar o projeto.

Figura 1: Foguete alemão “Vergeltungswaffe 2” (V-2) usado na segunda guerra mundial.

    Lançado em 26/11/1965, em Hammaguir, Argélia, o foguete Diamant-A (Figura 2) foi o primeiro veículo espacial lançado pela França, tornando-a a terceira potência espacial depois da URSS e dos EUA.
    O objetivo da missão era simples: Colocar o satélite Astérix (Figura 3) em órbita, cuja função era verificar o funcionamento da base e do foguete para provar a capacidade da França de colocar um objeto em órbita.
    Devido à danos causados na antena do satélite durante o lançamento, não foi possível comunicar com o satélite, mas foi possível confirmar que ele estava em órbita graças aos poucos sinais que suas antenas ainda conseguiam transmitir.
    Depois, ainda foram lançados mais três foguetes com o mesmo design do Diamant-A.

Figura 2: Lançamento do Diamant-A.

 

Figura 3: Satélite Astérix.

    Lançado em 10/03/1970, em Korou, Guiana Francesa, o primeiro foguete Diamant-B (Figura 4) carregava os satélites franco-germânicos Dial-Wika e Dial-Mika (Figuras 5 e 6).
    O Dial-Wika tinha o objetivo de estudar as variações no espaço e tempo da densidade de elétrons na atmosfera superior e a intensidade da radiação Lyman-alfa na Geocorona.
    Já o Dial-Mika, serviu apenas para monitorar o funcionamento do foguete durante a missão, mas foi danificado logo no início do lançamento.
    Com o sucesso da missão, mais quatro foguetes foram lançados com o design da série Diamant-B, sendo um deles denominado “Diamant-B2”.

Figura 4: Lançamento do foguete Diamant-B.

 

Figura 5: Satélite Dial-Wika antes de ser lançado.

 

Figura 6: Satélite Dial-Mika que seria usado para monitorar a missão.

    Lançado em 12/12/1970, em Korou, Guiana Francesa, o foguete Diamant-B2 (Figura 7), que era uma variante dos foguetes Diamant-B, tinha o objetivo de colocar o satélite Péole (Figura 8) em órbita, este satélite foi desenvolvido para testar a coleta de dados meteorológicos, como velocidade do vento pelo rastreamento de balões meteorológicos e recepção de dados de telemetria. Também foi usado para estudar o efeito da radiação solar no espaço.
    O satélite tinha o formato de um octaedro regular com 8 placas solares conectadas na sua base.
    Graças ao seu sucesso, quase todos os sistemas foram incorporados no futuro satélite Eole.

Figura 7: Foguete Diamant-B2 na base de lançamento.

 

Figura 8: Satélite francês “Péole” (Preliminaire Eole).

    Depois das séries de lançamentos dos foguetes Diamant-A e Diamant-B, houve uma última série de três foguetes, chamados de Diamant-BP4 (Figura 9). O primeiro deles, lançado em 06/02/1975, de Korou, carregava o satélite Starlette (Figura 10), que permanece em órbita até hoje. O Starlette foi o primeiro satélite totalmente passivo à usar tecnologias SLR, mas o que isso significa? É simples: Satélites passivos não possuem equipamentos eletrônicos nem fontes de energia próprias, eles servem apenas para refletir lasers transmitidos pela Terra, o uso destes lasers no rastreamento de satélites é chamado de SLR (Satellite Laser Ranging).
    O Starlette serve para estudar o campo gravitacional da Terra e as marés, para isso, um laser é disparado por alguma estação terrestre, que, ao ser refletido de volta para a Terra, a base estuda e calcula o tempo que o laser demorou para retornar, o que pode revelar dados sobre a ação da gravidade terrestre e lunar sobre o satélite.

Figura 9: Lançamento do foguete Diamant-BP4.

 

Figura 10: Satélite Starlette. Os “furos” em sua superfície são os refletores dos lasers disparados contra o satélite.

REFERÊNCIAS:

CNES. Diamant. Centre Spatial Guyanais, s.d. Disponível em: https://centrespatialguyanais.cnes.fr/en/diamant. Acesso em: 02 nov. 2025.

CNES. ELM-Diamant launch complex: space history in the making. CNES, s.d. Disponível em: https://cnes.fr/en/news/elm-diamant-launch-complex-space-history-making. Acesso em: 02 nov. 2025.

O Portal. Starlette: space and hardware components. EO Portal, s.d. Disponível em: https://www.eoportal.org/satellite-missions/starlette#space-and-hardware-components. Acesso em: 10 nov. 2025.

ESA. Diamant B launch, Kourou, 1970. ESA Multimedia, 2009. Disponível em: https://www.esa.int/ESA_Multimedia/Images/2009/11/Diamant_B_launch_Kourou_1970. Acesso em: 10 nov. 2025.

ILRS / NASA GSFC. Stella / Starlette (satellite mission general info). ILRS, s.d. Disponível em: https://ilrs.gsfc.nasa.gov/missions/satellite_missions/current_missions/stel_general.html. Acesso em: 10 nov. 2025.

Manning, Catherine G. What are passive and active sensors? NASA, 14 out. 2012. Disponível em: https://www.nasa.gov/general/what-are-passive-and-active-sensors/.

ScienceDirect. Satellite laser ranging. ScienceDirect, s.d. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/topics/earth-and-planetary-sciences/satellite-laser-ranging. Acesso em: 18 nov. 2025.

Skyrocket, Gunter’s Space Page. Peole. Gunter’s Space, s.d. Disponível em: https://space.skyrocket.de/doc_sdat/peole.htm. Acesso em: 18 nov. 2025.

Skyrocket, Gunter’s Space Page. Starlette. Gunter’s Space, s.d. Disponível em: https://space.skyrocket.de/doc_sdat/starlette.htm. Acesso em: 18 nov. 2025.

Wikipedia Contributors. V-2 rocket. In: Wikipedia, The Free Encyclopedia, s.d. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/V-2_rocket. Acesso em: 18 nov. 2025.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Biologia Forense no espaço: é possível investigar crimes fora da Terra?

A biologia forense é uma área que tem grande importância aqui na Terra, pois auxilia na investigação de crimes, principalmente por meio da análise do DNA. Mesmo em condições consideradas normais, já existem diversas dificuldades, como a contaminação e a degradação das amostras biológicas. Quando essa área é pensada fora do ambiente terrestre, os desafios se tornam ainda maiores. No espaço, há fatores extremos como radiação intensa, microgravidade, vácuo e mudanças bruscas de temperatura. Diante disso, surge a pergunta: seria possível investigar um crime fora da Terra? E, além disso, quais seriam as implicações jurídicas envolvidas?

Essas questões servem como ponto de partida para o trabalho. O principal objetivo é compreender como o DNA se comporta quando exposto a diferentes condições ambientais, como calor, frio, congelamento e radiação, fatores que podem comprometer a integridade das amostras biológicas. Além disso, o estudo também busca refletir sobre o aspecto jurídico, investigando se existem leis, normas ou tratados que tratem de crimes cometidos fora do planeta.

Na parte prática, foi realizada em casa uma simulação simples de extração de DNA, com o objetivo de entender melhor como funciona esse processo, semelhante ao que ocorre em análises forenses. O material biológico utilizado para a extração foi a banana, uma fruta rica em células, o que facilita a visualização do DNA. A técnica utilizada foi a lise celular, que consiste no rompimento da membrana das células para liberar o material genético. O procedimento envolveu o uso de detergente, que quebra as membranas celulares; sal, que ajuda a separar o DNA de outras substâncias presentes na célula; e álcool gelado, que faz com que o DNA se torne visível. Ao final do processo, o DNA apareceu na forma de filamentos ou nuvens esbranquiçadas, permitindo a observação do material genético de maneira simples e visual, conforme apresentado na Figura 1.


Figura 1 - DNA extraído por meio do processo de lise celular, em condições normais.


Para facilitar a compreensão da atividade, o processo de extração do DNA pode ser descrito em um passo a passo simples, que pode ser realizado em casa com materiais acessíveis. Primeiro, escolhe-se uma fruta, como banana (utilizada nesta atividade) ou morango, que também é bastante indicado para esse tipo de experimento. A fruta deve ser bem amassada, para romper mecanicamente as células e facilitar a liberação do conteúdo celular. Em seguida, adiciona-se detergente, responsável por romper as membranas celulares durante a lise celular. Depois, acrescenta-se sal, que auxilia na separação do DNA de outras substâncias presentes na célula. Por fim, adiciona-se cuidadosamente o álcool bem gelado, o que faz com que o DNA se torne visível. Após alguns minutos, é possível observar o DNA como uma substância esbranquiçada, em forma de fios ou nuvem.

Após a extração, foram realizadas simulações com o DNA submetido a diferentes condições ambientais, com o objetivo de comparar como cada fator influencia sua preservação. Foram analisadas três amostras: DNA mantido em temperatura ambiente, DNA submetido ao processo de congelamento e descongelamento e DNA exposto à luz solar direta.

Na Figura 2, observa-se o DNA que passou pelo congelamento e descongelamento, apresentando um aspecto mais fragmentado. Isso ocorre porque o congelamento pode gerar cristais de gelo, que rompem as cadeias do DNA e causam danos à sua estrutura. Já na Figura 3, o DNA exposto à luz solar direta apresenta maior degradação, resultado da ação da radiação ultravioleta (UV), que quebra as ligações químicas da molécula e provoca a perda parcial do material genético.



Figura 2 - DNA submetido ao processo de congelamento e descongelamento.



Figura 3 - DNA exposto à luz solar direta.


Essas comparações mostram o quanto fatores ambientais interferem na estabilidade e na conservação do DNA, o que representa um grande desafio em ambientes espaciais, onde há radiação intensa e variações extremas de temperatura.

No que se refere à parte jurídica, atualmente existe o Tratado do Espaço Exterior, criado em 1967, que estabelece que cada país é responsável por seus astronautas e pelos equipamentos enviados ao espaço. No entanto, esse tratado apresenta limitações importantes, pois não define normas específicas para crimes que envolvam pessoas de diferentes nacionalidades. Assim, ainda não existe uma legislação internacional clara para lidar com crimes cometidos fora da Terra.

Um caso real que chamou atenção para essa questão foi o da astronauta Anne McClain, acusada em 2019 de acessar a conta bancária de sua ex-esposa enquanto estava a bordo da Estação Espacial Internacional. O episódio ficou conhecido como o primeiro crime potencial cometido no espaço. Apesar de não ter havido condenação, o caso levantou questionamentos importantes sobre quem teria autoridade para investigar e julgar crimes ocorridos fora do planeta.

É importante pensar nessas questões porque, quando a gente compara, dá pra perceber que se fatores que já são considerados “normais” aqui na Terra conseguem degradar tanto o DNA, no espaço isso pode ser ainda mais complicado. Lá fora, as condições são muito mais extremas e até difíceis de imaginar, o que torna a preservação de vestígios biológicos um grande desafio. Além disso, a parte jurídica também chama atenção, já que, como foi analisado, ainda existem muitas lacunas quando se fala em crimes cometidos fora da Terra. Esse é um tema que está se tornando cada vez mais atual e que merece ser mais estudado, tanto para pensar em formas de preservar o DNA quanto no desenvolvimento de equipamentos e protocolos adequados.


Referências:

IPOG – Pós-Graduação em Perícias Forenses. Genética forense: conheça como é realizada investigação criminal por exames de DNA. Goiânia: IPOG, [s.d.]. Disponível em: https://blog.ipog.edu.br/tecnologia/genetica-forense-conheca-como-e-realizada-investigacao-criminal-por-exames-de-dna/amp/. Acesso em: set. 2025.

GNIPPER, Patricia. Cometendo crimes no espaço: como esse tipo de ato pode ser julgado? Canaltech, 30 ago. 2019. Disponível em: https://canaltech.com.br/espaco/cometendo-crimes-no-espaco-como-esse-tipo-de-ato-pode-ser-julgado-148329/. Acesso em: set. 2025.

Como julgar um crime no espaço? JusBrasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/artigos/como-julgar-um-crime-no-espaco/751903598. Acesso em: set. 2025.

Nova fronteira da ciência forense: investigar crimes no espaço. TecMundo, [s.d.]. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/ciencia/280852-nova-fronteira-ciencia-forense-investigar-crimes-espaco.htm. Acesso em: set. 2025.

KAWANE, Kohki; MOTANI, Kou; NAGATA, Shigekazu. DNA Degradation and Its Defects. PMC – NCBI, 2014. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4031964/. Acesso em: set. 2025.


Por: Djovana Panzenhagen, integrante do Projeto de Ensino Clube de Astronomia e aluna do Curso Técnico em Meio Ambiente Integrado ao Ensino Médio, curso este oferecido pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Feliz.

Expansão do Universo e Tensão de Hubble

 Na Grécia antiga, os filósofos criaram a ideia de que o universo era infinito e eterno. Essa ideia ultrapassou séculos, e predominou por muito tempo devido a falta de evidências contrárias. 

Este dogma esteve presente em muitas obras científicas importantes, como por exemplo a Relatividade Geral de Einstein, publicada em 1915, onde nela Einstein para não contrariar séculos de pensamento de um universo estático, assumiu que deveria haver alguma força que “segurasse” a expansão do universo prevista em suas equações, criando então a Constante Cosmológica (Λ).

Algum tempo depois da publicação da Relatividade Geral, em 1927, o padre e físico Georges Lemaître reinterpreta a Relatividade Geral e propõe que é cabível a ideia de que o universo estaria se expandindo e que o universo partiu, em algum momento, de um único ponto, e chamou a ideia de “átomo primordial”.


Figura 1: Linha do tempo do universo pós Big bang.


 Dois anos mais tarde, em 1929, Edwin Powell Hubble, enquanto observava galáxias distantes no Observatório de Mount Wilson, notou que a maioria delas estava se afastando de nós. Ele percebeu isso devido ao efeito Doppler cosmológico, análogo ao efeito Doppler convencional. A distinção entre o cosmológico e o convencional reside no fato de que as galáxias distantes em si não estão em movimento que aumenta com a distância; em vez disso, é o próprio tecido do espaço que se expande, provocando um aumento na distância, e quanto maior a distância, mais tecido há para expandir.

 Essa expansão pode ser medida e descrita pela Lei de Hubble (v = H₀ × d). 

v = velocidade da expansão; H₀ = constante de Hubble; d = distância.

Apesar das fortes evidências trazidas pelas observações de Hubble, a ideia de um universo em expansão não convenceu a todos os físicos, na década de 40 Fred Hoyle por exemplo, por não ser favorável a ideia criticava a mesma abertamente, e em uma entrevista de rádio para a BBC ironizou a teoria usando o termo ‘Big Bang’ para ridicularizar a hipótese de como se parecia a expansão do universo. Mesmo assim, o apelido acabou ficando popular, e dessa forma o crítico Fred Hoyle acabou batizando acidentalmente a teoria de Lemaître.

 Décadas depois de Hubble, em 1965 Arno Penzias e Robert Wilson, trabalhando em uma antena de micro-ondas nos EUA usada para comunicação via satélite, detectaram um ruído constante que vinha de todas as direções do céu. Acidentalmente eles acharam um eco térmico do universo quando o mesmo tinha apenas cerca de 380 mil anos. Esse ruído já havia sido previsto pelo físico George Gamow junto com seus alunos Ralph Alpher e Robert Herman entre os anos 40 e 50, enquanto calculavam as implicações do Big Bang. E esse ruído é o que chamamos de Radiação cósmica de fundo (CMB). 


Figura 2: Mapa da radiação cósmica de fundo de micro-ondas (CMB).


 E é com essa descoberta que chegamos em um dos grandes problemas ainda não resolvidos da cosmologia: A Tensão de Hubble. A Tensão de Hubble representa um dos grandes desafios da cosmologia atual. Ela se manifesta como uma variação no valor da constante de expansão do universo(constante H₀, a constante de Hubble.), dependendo do método de medição utilizado. 

Por exemplo, a medição através da Radiação Cósmica de Fundo (CMB) fornece um valor de 67,4 km/s/Mpc, enquanto a medição por meio de supernovas de estrelas do tipo 1A próximas e cefeidas resulta em um valor significativamente maior, de 73,2 km/s/Mpc. Até o momento, os principais e mais confiáveis métodos de medição não parecem estar errados, mas divergem entre si mesmo que individualmente possuem barras de erros baixíssimas.

 Essa tensão sugere duas possibilidades principais: ou há algum erro técnico em nossos métodos mais confiáveis de medir a Constante de Hubble, ou existe um conhecimento fundamental sobre o universo que ainda nos falta. Isso poderia envolver a existência de partículas além do Modelo Padrão, a influência da Energia Escura ou, talvez, algo totalmente desconhecido. 

Seja qual for a resposta, a resolução da Tensão de Hubble tem o potencial de revolucionar a cosmologia. Os mais novos instrumentos de observação como o telescópio espacial James Webb estão sendo usados para tentar calibrar as distâncias e confirmar se a tensão permanece ou quem sabe, desaparece e encerra esse grande mistério.


Referências: 

d’ENTERRIA, David. Status of the Quark Gluon Plasma (QGP) search at RHIC: A PHENIX perspective. Lisboa, 15 abril 2005. Apresentação no 7th Workshop on Percolation, Heavy-Ion Collisions & Cosmic Rays. Disponível em: https://www.phenix.bnl.gov/phenix/WWW/publish/enterria/lisbon_apr05/lisbon_apr05.pdf. Acesso em: 12 out 2025. 

EINSTEIN, Albert. Die Feldgleichungen der Gravitation. Sitzungsberichte der Königlich Preußischen Akademie der Wissenschaften, 1915. 

PLANCK COLLABORATION. Planck 2018 results. VI. Cosmological parameters. Astronomy & Astrophysics, v. 641, A6, 2020. 

RIESS, Adam G. et al. Cosmic Distances and Hubble's Constant. The Astrophysical Journal Letters, 2021.

 WIKIPÉDIA. Radiação cósmica de fundo em micro-ondas. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Radiação_cósmica_de_fundo_em_micro-ondas. Acesso em: 12 out. 2025. imagem CMB


Por: Lohan Gutz Rufino, integrante do Projeto de Ensino Clube de Astronomia e aluno do Curso Técnico em Química Integrado ao Ensino Médio, curso este oferecido pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Feliz.


Tecnologias Espaciais: Como as Invenções do Espaço Estão Mudando a Vida na Terra

 Quando ouvimos falar em tecnologia espacial é comum que venha à mente foguetes, missões espaciais a outros planetas e astronautas. Mas o que muitos não imaginam é que esse termo também está muito presente no nosso dia a dia. Do GPS ao Wi-Fi, passando por termômetros infravermelhos, travesseiros viscoelásticos e até filtros de água, tudo isso tem origem em pesquisas espaciais.
O que são as tecnologias espaciais e quando surgiram?
As tecnologias espaciais são um conjunto de ferramentas e técnicas que permitem o estudo, a exploração e a utilização do espaço exterior. Elas envolvem o uso de equipamentos como sondas espaciais, satélites, telescópios e naves tripuladas que possibilitam a observação do universo e o desenvolvimento de pesquisas científicas.
A história dessas tecnologias remonta à Antiguidade, quando surgiram as primeiras teorias sobre órbitas, velocidade e gravidade. No entanto, foi apenas no início do século XX que começaram a ser criados os primeiros protótipos de foguetes, como o V-2, utilizado durante a Segunda Guerra Mundial. Os grandes avanços, porém, ocorreram durante a Guerra Fria, quando a União Soviética lançou o Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da Terra. Esse evento marcou o início de um período de intensa transformação científica e tecnológica, consolidando o início da era espacial.
Como a tecnologia espacial vem contribuindo para a humanidade?

Além de naves, sondas e telescópios, foram criadas diversas ferramentas e técnicas para garantir a segurança e a sobrevivência dos astronautas em ambientes extremos, como o vácuo do espaço e temperaturas extremas. Essas mesmas soluções acabaram sendo adaptadas para o uso aqui na Terra, melhorando nosso conforto, saúde e segurança. 
Entre as principais contribuições, destacam-se:

 

O sensor (chip) de pixel ativo CMOS APS (figura 1) foi desenvolvido em 1993, no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, sob a liderança do engenheiro e físico Eric Fossum. O objetivo era desenvolver um dispositivo de gravação de vídeo que fosse prático e econômico. A iniciativa fez muito sucesso e até hoje o material é utilizado em câmeras DSLR na maioria dos smartphones.



Figura 1: modelo do sensor CMOS APS



O termômetro infravermelho (figura 2) foi desenvolvido pela Diatek e NASA. Para desenvolver o termômetro foi usada a mesma  tecnologia que mede a temperatura de estrelas e planetas. Contando com a tecnologia no espaço, a Diatek desenvolveu um produto que dispensa o toque nas pessoas e que estima a temperatura utilizando a energia infravermelha que emana dos tímpanos.


Figura 2: modelo de termômetro infravermelho


A espuma viscoelástica (figura 3) foi desenvolvida em 1966 pelos os pesquisadores Charles Yost e Charles Kubokawa, contratados pela NASA. Seu objetivo inicial era criar assentos mais confortáveis e seguros para os astronautas durante o lançamento. A partir da década de 1980 a espuma passou a ser usada para fabricar travesseiros, colchões e acessórios esportivos.


Figura 3:  imagem de uma mão mostrando a deformação da espuma viscoelástica.


Grooving (figura 4) é um tipo de ranhura nas pistas de pouso usado para escoar a água e aumentar a aderência dos pneus com o solo. A NASA desenvolveu essa técnica para melhorar as aterrissagens dos ônibus espaciais, que eram pesados e pouco estáveis. Por ser um método seguro e eficiente, hoje em dia é utilizado em pistas de corridas e de pouso de aeronaves comuns.


Figura 4: Micro valas por onde escorre a água em dias de chuva.


Os engenheiros da NASA perceberam que as turbulências geradas pelas aeronaves também gastavam combustível. Foi aí que eles desenvolveram os winglet (figura 5), uma  espécie de asa vertical instalada na ponta das asas das aeronaves, capazes de gerar economia de até 9%.


Figura 5: Diferença entre asa com winglet e asa sem winglet.


Além das  tecnologias citadas acima, existem diversas outras,como a fórmula enriquecida, traje de compressão para as grávidas, tecnologia wireless( ferramentas que operam sem cabos), isolante térmico, filtros de água (cartuchos de iodo), internet via satélite entre muitas outras. 



Referências:


FIACOM. 17 tecnologias espaciais usadas no dia a dia e como elas contribuem na sociedade. Blog FIA, 12 mai. 2023. Disponível em: https://fia.com.br/blog/tecnologia-espacial/. Acesso em: 15 set. 2025.

THE AEROSPACE CORPORATION. A brief history of space exploration. Disponível em: https://aerospace.org/article/brief-history-space-exploration. Acesso em: 16 set. 2025.

LIMA, Bruno Ignacio de. Entenda a linha do tempo da exploração espacial: De 1957 até 2019. Oficina da Net, 20 jan. 2020. Disponível em: https://www.oficinadanet.com.br/ciencia/29374-entenda-a-linha-do-tempo-da-exploracao-espacial-de-1957-ate-2019. Acesso em: 16 set. 2025.

NASA. A to Z of NASA Missions. Disponível em: https://www.nasa.gov/a-to-z-of-nasa-missions/. Acesso em: 17 set. 2025. 


Por: Livia Luise Zimmermann, integrante do Projeto de Ensino Clube de Astronomia e aluna do Curso Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio, curso este oferecido pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Feliz.

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