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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Do pensamento atomicista grego à consolidação da teoria atômica moderna: considerações metafísicas sobre o papel das razões intuitiva e discursiva

A

vida dos homens em sociedade alcançou situação única ao longo da história da Grécia Antiga. Segundo Jaeger (1994, p. 5): “Por mais elevado que julguemos as realizações artísticas, religiosas e políticas de povos anteriores, a história daquilo a que podemos com plena consciência chamar cultura, só começa com os gregos”. Entre as muitas contribuições dos gregos da antiguidade ao aprimoramento intelectual da humanidade, encontram-se as bases do pensamento científico moderno (STRATHERN, 2002), e das modernas teorias sobre a origem da matéria, cujo debate atravessou os séculos e segue até os dias de hoje. 


Tradicionalmente, considera-se o grego Tales de Mileto o primeiro filósofo, nascido  no século VII a.C. Este inaugurava um novo modo de pensar, guiado pela lógica humana. No entanto, atribui-se a outro grego, Pitágoras de Samos, nascido algumas décadas após Tales, a criação da palavra filosofia (CHAUÍ (2020). Os primeiros filósofos, denominados de pré-socráticos pela historiografia, buscavam formular uma explicação racional sobre a origem do mundo. Esse período, conhecido por cosmológico, encontrou diferentes formas de pensar para fundamentar o princípio da arché, o princípio primeiro, aquele do qual todas as coisas presentes na natureza (physis, em grego), teriam se originado e que causaria suas constantes transformações. 


Para Tales de Mileto, o princípio de tudo deveria estar contido na própria natureza. Assim, quando encontrou fósseis de conchas marinhas muito acima do nível do oceano, supôs que o mundo se desenvolvera a partir de um único elemento: a água (STRATHERN, 2002). Já para seu discípulo Anaxímenes, se tudo se originava a partir de um único elemento, a água, não haveria como explicar a diversidade existente no mundo. Este sustentou então que o elemento fundamental deveria ser o ar: “O mundo estava cercado de ar, que ficava mais comprimido quanto mais se aproximava do centro…[...]... Tudo era ar, num estado mais ou menos condensado” (STRATHERN, 2002, p. 19). Para melhor compreensão das abordagens defendidas pelos filósofos pré-socráticos, com base em CHASSOT (2016), CHAUÍ (2020) e STRATHERN (2002), elaborou-se o seguinte quadro: 


Filósofo

Princípio primeiro

Tales de Mileto

a água

Anaximandro de Mileto

propõe a existência de um elemento ilimitado, eterno, imortal e indissolúvel, no qual tudo se gera e se dissipa: o ápeiron.

Anaxímenes de Mileto

concorda com a ideia de elemento ilimitado, mas era possível determiná-lo: o ar. Na sua teoria, o espírito e a matéria surgem como um todo único, inseparáveis.

Anaxágoras de Clazômena

Baseia-se na noção de caos e introduz a noção de inteligência ou espírito cognoscente, eterno, independente e autônomo, unido a uma substância original formada homeomericamente por todas as coisas presentes no universo. Por revoluções, estas se separariam e ou se recombinariam.

Heráclito de Éfeso

o fogo é a origem e o fim de todas as coisas. A natureza é um fluxo perpétuo, só o devir é real. Os seres surgem e se dissipam continuamente.

Empédocles de Agrigento

água, ar, fogo, terra. Tudo o que existia no mundo, se formava a partir da combinação dos 4 elementos em movimento sob a ação combinada de duas forças: o amor (atrai) e ódio (repele)

Pitágoras de Samos

o número, ou ponto, que deu origem a tudo na matemática - a Geometria - junto à ideia de unidade proposta pelo algarismo 1, que é o início por excelência. 

Parmênides e Zenão

teoria da imobilidade: só o ser é real, só podemos pensar naquilo que realmente existe. A percepção é impensável pois é enganosa; só o pensamento consegue apreender a identidade imutável dos seres. 

Leucipo de Abdera

partículas fundamentais, indivisíveis

Demócrito de Abdera

quantidade infinitas e inumeráveis tipos de átomos no espaço em perpétuo movimento, que diferem entre si em forma, tamanho, peso e calor. Somente o pensamento pode conhecer os átomos, que são invisíveis a nossa percepção sensorial. 

Elaborado pela autora.


Se Tales de Mileto foi o precursor do pensamento científico e pioneiro ao desenvolver o conceito de elemento básico, foi outro grego, Leucipo, a afirmar apenas um século mais tarde, que a pshysis não seria contínua, indefinidamente. Haveria, pois, um ponto a partir do qual ela não seria mais divisível (STRATHERN, 2002). Para Leucipo, o universo era infinito, e possuía uma parte vazia e outra cheia, onde estariam as partículas fundamentais, pequenos corpos indivisíveis - átomos - em movimento giratório, de acordo com a razão e necessidade (CHASSOT, 2016). Foi seu discípulo Demócrito quem propôs chamar de átomo (no grego antigo άτομο) a partícula fundamental de Leucipo. 


A partir das analogias entre rochas que se desfazem com o tempo, e terra que se torna lama ao entrar em contato com a água (em De rerum natura, de Lucrécio), Demócrito de Abdera induziu que a mecânica do mundo se baseava em decaimento e combinação (RIBEIRO, 2015). Ao mesmo tempo, observou a renovação da natureza, como nos fenômenos relacionados a nascentes e crescimento de árvores. Isso o fez pensar que  havia algo de perpétuo em torno destes objetos aos quais temos acesso e permite a renovação. Segundo RIBEIRO (2015), Demócrito concebeu o vazio como um vácuo, um espaço infinito, em que um número infinito de átomos que compunham o mundo físico se moviam. Esses átomos eram, para Demócrito, eternos e invisíveis, tão pequenos que o seu tamanho não poderia ser diminuído. Aqui fica evidente que os teóricos atomistas aplicaram o conceito matemático de divisão da physis para se chegar à ideia de átomo: dividi-la ao ponto em que não fosse mais possível ir além (STRATHERN, 2002). Embora não muito diferente do primeiro modelo científico de átomo proposto séculos mais tarde por John Dalton, é justamente a teoria atomista de Leucipo e Demócrito que não será bem aceita entre os pensadores de sua época, pois o seu pensamento materialista continha um viés político radical, que não reconhecia nenhuma ordem natural ou preestabelecida no universo (CHASSOT, 2016).


A partir do século V a. C., os grandes debates sobre a origem do universo serão substituídos por questões mais centradas nas grandes questões humanas como a ética e política, no papel que o homem ocupa no mundo, introduzidas por Sócrates, o primeiro do triunvirato grego de grandes filósofos (CHAUÍ, 2020). Aristóteles é tido como o terceiro, e viveu no século IV a. C. Apesar de seus grandes feitos, Aristóteles vai se distanciar da ideia atomicista da matéria e retomar parte da teoria dos quatro elementos de Empédocles para explicar a origem e natureza da matéria, propondo ainda uma quinta essência: o éter (CHASSOT, 2004; STRATHERN, 2002). Aristóteles considerou que todos os seres do universo tinham o seu lugar natural, de acordo com a matéria predominante em sua natureza, distribuídos em 59 esferas concêntricas. Como percebia que quanto mais elemento “terra” um corpo tivesse, mais rapidamente ele se aproximava do solo terrestre, quando comparado a um “menos grávido” de terra (CHASSOT, 2004). Aristóteles concluiu que estes procuraram retornar à fonte da sua origem, e tomou a Terra como o primeiro dos elementos; por isso, deveria ser o centro do universo. Na segunda esfera estava o elemento água, pois se encontrava sobre a superfície da terra. Na terceira esfera estava o elemento ar, por recobrir a Terra. O elemento fogo estava na quarta esfera, acima de nossas cabeças; prova disso, eram as chamas, que sempre queimam para cima, numa tentativa de retornarem ao seu lugar de origem. O elemento éter era rarefeito e inalterável, presente no céu da Lua para cima, pois os corpos celestes não estavam sujeitos às mesmas leis físicas; eis porque, em sua visão, não caíam sobre a Terra. Devido à importância do filósofo Aristóteles na área do conhecimento, sua teoria perdurou como absoluta e verdadeira até as descobertas do astrônomo e matemático Nicolau Copérnico, no século XVI (STRATHERN, 2002).  

A Física Quântica provou serem verdadeiras as bases do pensamento atomicista, sustentado intuitivamente pelos primeiros filósofos gregos no século VI a.C., quando então não se dispunha de nenhum equipamento capaz de identificar quantitativamente as partículas e subpartículas de um átomo. A busca pelo princípio primeiro para explicar a origem do universo no período conhecido como cosmológico na Grécia Antiga tem levado os cientistas a desvendarem cada mais a natureza da matéria na modernidade, a partir do momento em que o modelo atômico foi consolidado e aceito sem reservas pela comunidade científica a partir do início do século XX. Nas últimas décadas, novas evidências quantitativas têm surgido que apontam para novas formas desconhecidas de matéria. Novas reflexões metafísicas se fazem necessárias neste momento, quando uma maneira de compreender o universo se vislumbra em um futuro próximo.


Por: Silvana Schenkel, integrante do Projeto de Ensino Clube de Astronomia e aluna do Curso de Licenciatura em Letras, curso este oferecido pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Feliz.



Referências Bibliográficas


CHASSOT, Attico. A ciência através dos tempos. 2. ed., 30ª impr. São Paulo: Moderna, 2016.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 14ª ed. São Paulo: Ática, 2020.

JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

STRATHERN, Paul. O sonho de Mendeleiev: a verdadeira história da química. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.






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